
Na última semana de agosto, uma avalanche devastadora atingiu o Himalaia, na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete. O desastre foi provocado por tremores relacionados a um colapso glacial e deixou mais de mil pessoas mortas e milhares de desaparecidas.
Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que tragédias parecidas podem acontecer em outras regiões montanhosas do planeta. O professor e pesquisador Saulo Rodrigues Filho, da Universidade de Brasília (UnB) e da Rede Clima, disse que estudos apontam risco semelhante nos Alpes europeus e nos Andes, na América do Sul. Ele explica que o aumento das temperaturas médias da Terra, já próximas de 1,5°C, deixou áreas permanentemente congeladas, chamadas de permafrost, instáveis e soltas. O aquecimento, acelerado pelo El Niño, deve registrar recordes em 2024 e continuar até 2027.
O climatologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden e membro da Academia Brasileira de Ciências, detalha que no Himalaia o aquecimento global provocou um recuo das geleiras, deixando o gelo solto. Essa massa despencou pela ação da gravidade, arrastando vegetação, areia e outros materiais, bloqueando rios e gerando ondas de lama que causaram inundações e mortes.
Marina Hirota, diretora do Instituto Reva, reforça que a combinação entre o evento climático, o relevo inclinado e a presença de vilas no sopé das montanhas cria o cenário para catástrofes. Ela destaca que a velocidade e o caráter imprevisível do fenômeno não dão tempo para as populações evacuarem.
Atualmente, segundo Marina, não existem monitoramentos sistematizados para o descolamento de geleiras, apenas iniciativas pontuais. Especialistas defendem a criação de sistemas de alerta precoce, mapeamento de riscos via satélite, uso de sismógrafos para detectar movimentações iniciais, além de planos de contingência junto às populações vulneráveis.
Fonte: Metropoles




