
No início desta semana, o presidente norte-americano Donald Trump assinou uma ordem executiva para reduzir a quantidade de vacinas administradas a bebês nos Estados Unidos. Uma das mudanças desobriga o uso da tríplice viral — imunizante que combina proteção contra sarampo, rubéola e caxumba. Trump alega que a vacina combinada é perigosa e deveria ser fracionada em três vacinas separadas.
Especialistas brasileiros rebateram as afirmações. O infectologista Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), disse que todos os países desenvolvidos aplicam a vacina combinada e que não existe estudo que aponte aumento no risco de morte entre os pacientes. "O óbito não é um efeito adverso esperado", afirmou.
O infectologista Klinger Faíco, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou que circula desde o início do ano um suposto estudo alegando que a tríplice viral causa milhares de vezes mais mortes do que o próprio sarampo. Segundo ele, esse número é falso e vem de um erro de método: os dados são retirados do VAERS, sistema americano em que qualquer pessoa pode registrar eventos de saúde após uma vacina, sem verificação. Faíco comparou esse método a "comparar boatos com laudos".
A revisão científica mais robusta sobre o tema foi feita pela Cochrane em 2020 e reuniu 138 estudos com dados de mais de 23 mil crianças. Os cientistas não encontraram ligação entre a vacina e autismo, asma, diabetes ou outros danos graves.
Os efeitos colaterais reais da tríplice viral são febre, mal-estar e pequenas manchas na pele que duram de três a cinco dias. Reações graves são extremamente raras e ocorrem principalmente em pessoas com imunodeficiência grave sem diagnóstico, conforme informação do Ministério da Saúde.
Cunha destacou ainda que, graças à tríplice viral, o Brasil eliminou o sarampo em 2016, não registra mais casos de rubéola congênita e materna e viu uma queda importante nos casos de caxumba. A vacina existe desde os anos 1970 e é usada no Brasil desde os anos 1990.
A proposta de fracionar a vacina também foi criticada pela comunidade científica. Além da falta de estudos que indiquem risco na vacina combinada, não há comprovação de que dividir muda a eficácia. Outro risco é que pais teriam que levar os filhos três vezes, o que pode reduzir a adesão. Em 1993, o Japão fez algo parecido: dividiu a vacina e desobrigou a de rubéola. O resultado foi um surto da doença, queda na procura pelas vacinas de sarampo e caxumba, e aumento dos casos dessas doenças.
Fonte: Metropoles - Saúde




